Fotografia documental sobre O metrô que virou laboratório: Lisboa abriga o maior banco de testes de fibra ótica multinúcleo do mundo

Imagem: Foto: Wikimedia Commons · Licença: cc-by-sa

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O metrô que virou laboratório: Lisboa abriga o maior banco de testes de fibra ótica multinúcleo do mundo

O metrô que virou laboratório: Lisboa abriga o maior banco de testes de fibra ótica multinúcleo do mundo

Fonte principal: Metropolitano de Lisboa e ISCTE inauguram maior banco de testes de fibra ótica multinúcleo do mundo - Metropolitano de Lisboa, Delhi to get 97 km of new Metro lines, 65 stations under mega ₹48,204 crore plan | India News, Delhi Metro Expansion: Pm To Inaugurate New Pink And Magenta Line Corridors, Launch Phase 5-A Routes · Por Redação Mundo Trilhos


O projeto LUMIRing instalou mais de 1.900 km de fibra multinúcleo nos túneis da Linha Amarela, criando o maior banco de testes subterrâneo do mundo e posicionando Portugal na vanguarda das comunicações de nova geração.

Toda grande cidade revela sua inteligência pelo modo como desloca as pessoas. O Metrô de Lisboa acaba de levar essa premissa a um novo patamar civilizatório, convertendo seus túneis subterrâneos no maior laboratório vivo de fibra ótica multinúcleo do planeta.

O projeto LUMIRing (Lisbon Underground Multicore Fiber Ring) foi inaugurado com a ambição de resolver um problema físico que se aproxima velozmente: a saturação da capacidade de transmissão das fibras óticas convencionais que sustentam a internet global. A resposta encontrada foi instalar, ao longo de 26 quilômetros da Linha Amarela entre Odivelas e o Rato, uma infraestrutura de testes com mais de 1.900 quilômetros de fibra, dos quais 728 quilômetros são do mesmo tipo, permitindo experimentos com fibras de quatro e sete núcleos.

A iniciativa resulta de uma parceria improvável entre o Metropolitano de Lisboa e o ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, com a participação da alemã Heraeus Covantics e da italiana Tratos Cavi. O investimento total foi de 1,4 milhões de euros, dos quais 588 mil euros vieram do FEDER através do Programa Regional Lisboa 2030, conforme divulgou o comunicado oficial do Metropolitano de Lisboa no lançamento.

A lógica técnica é ao mesmo tempo simples e revolucionária. Enquanto a fibra ótica tradicional utiliza um único núcleo de vidro para conduzir a luz, a fibra multinúcleo incorpora múltiplos núcleos independentes dentro da mesma casca, multiplicando a capacidade de transmissão sem alterar o diâmetro externo do cabo. Nos testes que começam agora, a meta é validar sistemas que alcancem até sete vezes a capacidade atual das redes de telecomunicações, um salto que se tornará comercialmente necessário a partir de 2026.

O vice-reitor do ISCTE para a Investigação e Modernização Tecnológica, Jorge Costa, descreveu o projeto como um balão de ensaio que pode escalar enormemente e transformar Lisboa num ponto geográfico e tecnológico de referência mundial. Ele revelou que operadoras globais como a norte-americana AT&T, a Deutsche Telekom e a Vodafone já demonstram interesse em acompanhar os resultados, o que significa empregos altamente qualificados com sede na capital portuguesa.

A presidente em exercício do Metropolitano de Lisboa, Maria Helena Campos, enfatizou que a colaboração constitui um passo decisivo para o desenvolvimento e validação de fibras óticas de nova geração recorrendo a soluções tecnológicas de vanguarda ainda pouco testadas à escala mundial. Ela destacou a capacidade do Metropolitano de Lisboa de atrair projetos de elevado valor científico e tecnológico, projetando a sua imagem no panorama internacional e fomentando sinergias com instituições académicas num quadro de responsabilidade pública.

O ambiente subterrâneo é tudo menos um detalhe técnico secundário. Diferentemente de um laboratório convencional climatizado, os túneis impõem vibrações constantes das composições, variações de temperatura, umidade, interferências eletromagnéticas do sistema de catenária aérea em 750 V DC e partículas metálicas em suspensão típicas da operação ferroviária. É precisamente essa hostilidade controlada que torna o LUMIRing um ambiente de validação insubstituível para as comunicações óticas de nova geração, porque reproduz as condições reais que os cabos enfrentarão quando instalados em dutos urbanos no mundo todo.

O responsável científico do projeto, Adolfo Cartaxo, acrescentou que a colaboração já foi acordada com o National Institute of Information and Communication Technology (NICT), a agência pública japonesa de investigação em tecnologias de informação e comunicação. A partir de 2026, o NICT realizará testes e demonstrações de sistemas de fibras multinúcleo em grande escala num ambiente subterrâneo realista, o que coloca Lisboa como plataforma de lançamento para o mercado asiático de telecomunicações.

A reitora do ISCTE, Maria de Lurdes Rodrigues, foi além da métrica técnica ao afirmar que este é um laboratório único não só em Portugal, mas também na Europa, com impacto económico de muito largo espectro. Ela destacou que a iniciativa requer elevadíssimos níveis de especialização, mas gera resultados com influência direta na vida cotidiana das pessoas, porque a infraestrutura de comunicação é tão essencial quanto a eletricidade ou a água tratada para o funcionamento das cidades contemporâneas.

O que se passa em Lisboa deveria soar como um chamado estratégico para metrôs brasileiros como os de São Paulo e do Rio de Janeiro. Ambas as cidades possuem extensas redes subterrâneas, universidades públicas de ponta e uma demanda crescente por conectividade que não se resolve apenas com mais antenas de 5G, mas com infraestrutura de transmissão que suporte a densidade de dados que a inteligência artificial e a internet das coisas exigirão na próxima década. A diferença entre testemunhar o futuro e construí-lo reside exatamente na decisão de abrir os túneis para a ciência aplicada, como fez o ISCTE ao transformar o Metro de Lisboa num laboratório vivo de inovação urbana com o apoio do Programa Regional Lisboa 2030.

A simbiose entre mobilidade e telecomunicações não é um capricho acadêmico: é a infraestrutura de base sobre a qual rodarão os sistemas de controle de tráfego do futuro, a sinalização ferroviária de altíssima precisão e a comunicação entre composições autônomas. O Metrô de Lisboa entendeu que pode ser, simultaneamente, operador de transporte e plataforma de desenvolvimento tecnológico, o que gera receita, visibilidade global e soberania digital.

Enquanto a Europa discute regulamentações sobre inteligência artificial, Portugal fincou uma bandeira na camada mais profunda da revolução digital: o meio físico por onde a luz viaja. O LUMIRing prova que a inovação radical não precisa de parques tecnológicos com gramados sintéticos, mas de túneis escuros, catenárias energizadas e a coragem de uma universidade que olhou para baixo e enxergou o futuro. A Linha Amarela do Metrô de Lisboa transporta pessoas desde 1959; agora, também transporta o sinal que alimentará a internet do amanhã.