Fotografia documental sobre Cada quilômetro de ferrovia nova no Brasil custa R$ 27 milhões e depende de Pequim

Imagem: Foto: Wikimedia Commons · Licença: cc-by-sa

carga

Cada quilômetro de ferrovia nova no Brasil custa R$ 27 milhões e depende de Pequim

Cada quilômetro de ferrovia nova no Brasil custa R$ 27 milhões e depende de Pequim

Fonte principal: Ferrovias em construção no Brasil e concessões, Brasil tenta, de novo, expandir as ferrovias. Mas ainda falta combinar com os chineses, Ferrovia para ligar o Atlântico ao Pacífico: veja o que se sabe até agora do projeto do Brasil com a China | G1 · Por Redação Mundo Trilhos


A Ferrogrão simboliza o abismo entre a ambição logística e a realidade financeira que empurra o país para os braços do capital estatal chinês.

A velocidade também é uma forma de civilização, e o Brasil parece condenado a descobrir essa verdade pelo lado mais caro da equação. Enquanto as rodovias absorvem a maior parte dos investimentos em transporte, cada quilômetro de trilho novo plantado no território nacional exige um desembolso médio de R$ 27 milhões, mais de três vezes o custo de uma estrada asfaltada, que gira em torno de R$ 8 milhões por quilômetro.

O dado, extraído de análises do setor, revela um desequilíbrio estrutural que trava a competitividade de uma economia sustentada por commodities e distâncias continentais. A Ferrogrão (EF-170), projetada para ligar Sinop (MT) a Itaituba (PA) ao longo de 1.000 quilômetros, tornou-se o emblema desse impasse logístico e financeiro.

Concebida ainda em 2014, a ferrovia promete reduzir o tempo de escoamento de grãos do Centro-Oeste para os portos do Norte e desafogar a combalida BR-163. No entanto, o traçado arrasta consigo um novelo de disputas ambientais e judiciais que só agora começa a se desfazer, após o Supremo Tribunal Federal validar a alteração dos limites do Parque Nacional do Jamanxim, no Pará.

A decisão da Corte, noticiada recentemente, destravou o caminho legal para o projeto, mas está longe de resolver o nó central: quem pagará a conta. O governo federal anunciou um pacote ambicioso de oito leilões ferroviários até 2026, somando 9.000 quilômetros de extensão e R$ 140 bilhões em investimentos, conforme reportagem do InvestNews.

Desse total, uma parcela virá de linhas especiais do BNDES, com prazos de pagamento alongados por até 60 anos e carência durante a fase de obras. Entretanto, o grosso do capital ainda depende da atração de parceiros estrangeiros, e é aí que a China entra em cena como fiadora involuntária da expansão ferroviária brasileira.

Não se trata de retórica geopolítica, mas de aritmética comercial: 70% da soja e do milho importados pelo gigante asiático saem do Brasil, e o governo de Xi Jinping encara a logística local como questão de segurança alimentar. Por isso, estatais chinesas como a CCCC, já presente no Porto de São Luís (MA), e a CRRC, maior fabricante de trens do mundo, sondam ativamente os leilões brasileiros.

A CRRC, vale lembrar, prepara uma fábrica em Araraquara (SP) e é sócia do Grupo Comporte na concessão do Trem Intercidades que ligará a capital paulista a Campinas. O ministro dos Transportes, George Santoro, já admitiu que cinco companhias chinesas estudam projetos de ferrovias e rodovias no país, um interesse que se concentra especialmente no corredor Fico-Fiol, pensado para conectar o interior produtor aos portos baianos.

Apesar desse assédio, o primeiro leilão do pacote está previsto para setembro de 2026, e o edital ainda não foi publicado. A demora reflete a dificuldade de fazer a conta fechar sem um subsídio estatal robusto, uma vez que o retorno financeiro de uma ferrovia de carga pode levar décadas para se materializar.

Enquanto isso, a malha existente opera num modelo quase extrativista: em 2025, os trilhos brasileiros moveram 406,6 milhões de toneladas de minério de ferro, 73% de toda a carga transportada, boa parte sob o controle verticalizado da Vale, segundo dados da Kartado. A mineradora, sozinha, movimentou 301 milhões de toneladas em suas próprias ferrovias no mesmo período, deixando claro que o minério é o rei absoluto do modal.

O agronegócio, apesar de ser a menina dos olhos da balança comercial, ainda ocupa um espaço modesto sobre trilhos, com 104,4 milhões de toneladas embarcadas em 2025. A Rumo, controlada pela Cosan de Rubens Ometto, é a principal operadora desse segmento, concentrando o escoamento de soja e milho na Malha Norte, que conecta o Mato Grosso ao Porto de Santos.

Mesmo assim, a devolução da Malha Oeste pela concessionária, cujo contrato venceu em junho sem carga transportada desde novembro do ano passado, expõe a fragilidade de rotas que não se sustentam sem um volume cativo de commodities. É nesse cenário que a Ferrogrão ressurge como aposta estratégica para ampliar a participação do agro nos trilhos e criar um corredor de exportação menos dependente dos portos do Sudeste.

O Regime de Autorização Ferroviária, criado no governo anterior, trouxe agilidade ao permitir que empresas construam ferrovias próprias sem passar por leilões, e já resultou em 39 projetos autorizados. No entanto, a realidade operacional esbarra na falta de licenciamento ambiental e na escassez de crédito privado, o que torna o BNDES e os bancos chineses os únicos players capazes de viabilizar empreendimentos dessa envergadura.

A introdução de mecanismos como o Dispute Board, regulamentado pela ANTT em abril do ano passado, busca trazer segurança jurídica aos contratos e evitar a paralisia que historicamente assola as obras de infraestrutura no Brasil. O Comitê de Prevenção e Solução de Disputas pretende resolver conflitos entre concessionárias e o poder público antes que eles se transformem em batalhas judiciais intermináveis, preservando a execução dos contratos.

Para a Ferrogrão, esse arcabouço pode ser a diferença entre virar realidade ou permanecer como miragem burocrática. O projeto carrega a promessa de integrar modais, combinando trilhos e hidrovias a partir de Itaituba, num desenho de intermodalidade que o Brasil persegue há décadas.

Contudo, a dependência de capital chinês introduz uma assimetria incômoda: o país que fornece o financiamento controla também a demanda que justifica a obra, num ciclo que pode aprisionar o Brasil em uma lógica meramente extrativa. A China não está interessada em desenvolver a indústria ferroviária brasileira por filantropia; o que move Pequim é a certeza de que trilhos eficientes derrubam o preço final da soja e do minério que abastecem seu parque industrial.

Enquanto a Alemanha e a França ainda sustentam estatais ferroviárias como a Deutsche Bahn e a SNCF para garantir a coesão territorial e a mobilidade de passageiros, o Brasil renunciou a esse papel coordenador desde a privatização da malha nos anos 1990. Os sucessivos PACs tentaram corrigir a rota, mas o resultado prático é um sistema que só funciona de forma consistente nos trechos onde há minério pesado o suficiente para justificar o investimento.

O pacote de R$ 140 bilhões anunciado pelo governo Lula para os próximos anos carrega a ambição de reverter essa lógica e espalhar os trilhos para além das rotas cativas da mineração. A Ferrogrão, com seus 1.000 quilômetros de extensão, é o teste definitivo de que o Brasil pode, enfim, usar a velocidade como ferramenta de civilização e não apenas como privilégio de commodities.