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VLT de Salvador avança com 43,71 km de trilhos e integração que desafia a lógica rodoviarista
VLT de Salvador avança com 43,71 km de trilhos e integração que desafia a lógica rodoviarista
Fonte principal: Projetos de VLTs no Brasil ganham impulso, VLT / MONOTRILHO DE SALVADOR | secretaria de desenvolvimento urbano, Ferrovias em construção no Brasil e concessões · Por Redação Mundo Trilhos
A maior obra de mobilidade sobre trilhos do Brasil em execução resgata o subúrbio ferroviário e prova que o Veículo Leve sobre Trilhos é a tecnologia madura que o país precisa para se reconectar com suas cidades.
A requalificação do Subúrbio Ferroviário de Salvador é um raro momento em que engenharia e justiça urbana andam de mãos dadas sobre vias permanentes singelas. Não é um resgate nostálgico, mas a aplicação de tecnologia moderna de mobilidade limpa em um território sufocado pela ausência do Estado.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária, Vicente Abate, comentando o novo ciclo de VLTs no Brasil, destacou que os sistemas de Rio de Janeiro e Santos operam com sucesso, provando que a indústria nacional está pronta para soluções de energia limpa, inclusive com hidrogênio verde e sistemas híbridos.
O projeto baiano, com 43,71 km de extensão, 50 paradas e integração ao Sistema Metroviário Salvador-Lauro de Freitas, é a resposta mais contundente ao ceticismo rodoviarista que ainda domina o planejamento urbano brasileiro.
As obras, autorizadas em junho de 2024, estão divididas em três trechos contratuais, revelando a complexidade da implantação. O Trecho 1, do Consórcio Expresso Mobilidade Salvador, ataca 16,66 km entre a Ilha de São João e a Calçada, com 19 paradas e prazo de 40 meses, incluindo extensão de 3,58 km em via permanente singela até o Comércio.
Essa extensão Calçada-Comércio resolve uma chaga histórica de alagamentos e conecta o sistema ao Mercado Modelo e Elevador Lacerda, melhorando o fluxo de pedestres e passageiros.
O Trecho 2 liga Paripe a Águas Claras em 9,20 km com oito paradas, criando a primeira integração multimodal com o metrô e rodoviária. O Trecho 3 estica 10,52 km de Águas Claras a Piatã, com nove paradas, sob a batuta do Consórcio Bahia Atlântico.
A Estação Águas Claras se consolida como nova centralidade urbana, reunindo VLT, metrô e terminal rodoviário. É uma demonstração de que o EVTEA pode redesenhar o mapa de oportunidades de uma metrópole.
Os 40 trens foram adquiridos de Mato Grosso e levados à fábrica da CAF em Hortolândia para restabelecimento técnico e operacional. Os testes dinâmicos devem começar no segundo semestre de 2025, com comissionamento e certificação antes do envio a Salvador.
A reaproveitação do material rodante mato-grossense é uma lição de racionalidade econômica, garantindo ativos confiáveis e liberando recursos para a via permanente e estações.
O projeto também prevê um skatepark internacional na orla de Praia Grande, combinando pistas de street e park, e ampliação de iluminação pública, calçada e áreas verdes, rompendo com a lógica de abandono que marcou a região.
A conclusão das obras está prevista para o primeiro semestre de 2028, compatível com o cronograma de 50 meses do Trecho 2. É tempo suficiente para que a malha ferroviária de Salvador se consolide como uma rede integrada de transporte de massa.
Do ponto de vista industrial, o projeto desafia os defensores do rodoviarismo como vetor único de desenvolvimento. Cada quilômetro de VLT eletrificado é um deslocamento de passageiros que não queima diesel, não congestiona avenidas e não pressiona o sistema de saúde com doenças respiratórias.
A via permanente singela na extensão Calçada-Comércio prova que não é necessário duplicar trilhos em todos os trechos para garantir fluidez operacional. Bem projetada, com sinalização adequada e cruzamentos controlados, a via singela entrega capacidade com custo reduzido e menor interferência urbana.
Cidades como Casablanca e francesas como Bordeaux e Nice apostaram no VLT como ferramenta de regeneração urbana e colheram valorização imobiliária e redução do tráfego de automóveis. Salvador, com seu projeto de 43,71 km, entra nesse clube.
Os contratos assinados em 14 de junho de 2024 indicam que o mercado de construção pesada brasileiro entendeu a mensagem. Há espaço para múltiplos players em projetos de mobilidade sobre trilhos, desde que o poder público estruture concessões e parcerias com segurança jurídica e projetos de referência.
A integração em Bairro da Paz, no Trecho 3, fecha o anel de mobilidade da região metropolitana e realça o papel do VLT como alimentador do sistema metroviário. Não compete com o metrô, mas complementa-o, levando passageiros do subúrbio à estação de alta capacidade.
A indústria ferroviária brasileira, representada pela ABIFER e com a CAF em Hortolândia, está diante de uma janela histórica. Com projetos em Bauru, Campina Grande e o Bonde São Paulo no horizonte, o restabelecimento técnico dos 40 trens do VLT de Salvador pode se transformar em um modelo replicável para dezenas de cidades médias que ainda operam sistemas obsoletos ou abandonados.
O skatepark não é um mimo paisagístico, mas uma declaração de que o trilho moderno não segrega o espaço público, mas o qualifica, atraindo juventude, esporte e convivência para onde antes só havia terrenos baldios e promessas vazias.
A extensão de 3,58 km até o Comércio, em via singela, se tornará o cartão de visitas do sistema. O passageiro que desembarcar do metrô em Águas Claras e seguir de VLT até o pé do Elevador Lacerda experimentará, em minutos, o que décadas de planejamento urbano fragmentado não conseguiram entregar: uma viagem contínua, limpa e pontual do subúrbio ao centro histórico.
A obra, contratada por meio de aditivo ao contrato do Consórcio Mobilidade Salvador, não é um penduricalho orçamentário. É a peça que fecha o quebra-cabeça da mobilidade do centro expandido, justamente onde o alagamento crônico da Calçada transformava dias de chuva em colapso urbano.
O cronograma até o primeiro semestre de 2028 pode parecer distante, mas para uma cidade que esperou décadas pelo reativação do subúrbio ferroviário, 50 meses de obra com três consórcios trabalhando simultaneamente é quase um recorde de velocidade. A palavra de ordem é execução, e os trilhos já estão sendo assentados.
Se o Brasil quiser descarbonizar sua matriz de transportes urbanos, o VLT de Salvador é o caso que prova que a tecnologia está madura, a indústria está pronta e a engenharia nacional sabe entregar. Resta ao restante do país olhar para a Bahia e copiar a coragem de quem decidiu que subúrbio também merece trilho de qualidade.
Assinatura: Redação
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