Fotografia documental sobre O país redescoberto sobre trilhos e o salto transcontinental que a China já financiou

Imagem: Foto: Wikimedia Commons · Licença: cc-by-sa

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O país redescoberto sobre trilhos e o salto transcontinental que a China já financiou

O país redescoberto sobre trilhos e o salto transcontinental que a China já financiou

Fonte principal: Brasil e China firmam parceria que prevê ferrovia ligando Atlântico e Pacífico | G1, Brasil tenta, de novo, expandir as ferrovias. Mas ainda falta combinar com os chineses, Projetos de trens de passageiros avançam no Brasil, mas ainda enfrentam desafios - Revista Ferroviária · Por Redação Mundo Trilhos


A geografia brasileira finalmente começa a ser recortada por uma nova ambição ferroviária, enquanto o Pacífico se aproxima do Atlântico com engenharia, capital estatal e commodities.

Toda grande cidade revela sua inteligência pelo modo como desloca as pessoas, mas a inteligência de uma nação inteira se mede pela forma como movimenta suas cargas. O Brasil decidiu, tardiamente, reabrir o mapa e enfrentar a equação logística que o persegue desde o abandono dos trilhos nos anos 1950.

A retomada das ferrovias de carga no país ganhou em 2026 um pacote simultâneo e ambicioso de oito leilões, somando 9 mil quilômetros e R$ 140 bilhões projetados. É a tentativa mais concreta de corrigir uma deformação histórica que concentrou a movimentação de riquezas em rodovias saturadas, enquanto a malha ferroviária encolhia e se especializava em pouquíssimos produtos.

A realidade dos trilhos brasileiros é brutal e estreita: 73% do transporte ferroviário nacional em 2025 foi minério de ferro, conforme detalhou o InvestNews. Apenas a Vale movimentou 301 milhões de toneladas, operando em um modelo de malha verticalizada no qual a mesma empresa extrai, transporta e embarca a commodity.

Fora da mineração, a Rumo se destaca levando grãos do Centro-Oeste ao porto de Santos, mas o agro respondeu por modestos 19% da tonelagem transportada sobre trilhos. O abismo entre a capacidade ferroviária e a produção agrícola brasileira é o que move a atual carteira de projetos, que visa encurtar a distância das commodities aos portos.

O projeto mais simbólico e polêmico dessa nova leva é a Ferrogrão, planejada para conectar Sinop (MT) a Itaituba (PA) em 1.700 quilômetros. A linha, travada por disputas ambientais desde 2014, avança como promessa de criar um corredor intermodal capaz de mudar o escoamento de grãos pelo Arco Norte.

Paralelamente, o Corredor Leste-Oeste costura duas ferrovias em construção, a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO) e a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL). A ideia é ligar áreas produtoras do Centro-Oeste diretamente aos portos da Bahia, desviando-se do saturado eixo Sudeste.

A matemática, porém, impõe um realismo duro e inescapável. Cada quilômetro de ferrovia no Brasil custa, em média, R$ 27 milhões, contra apenas R$ 8 milhões de uma rodovia, e o retorno financeiro pode levar décadas.

A equação não fecha sem financiamento estatal, e é nesse ponto que a China entra de forma estratégica. O memorando assinado entre a Infra S.A. e o Instituto de Pesquisa e Planejamento Econômico China Railway, em julho de 2025, prevê estudos para uma ferrovia transcontinental da Bahia ao porto de Chancay, no Peru, como registrou o G1.

O porto de Chancay, inaugurado por Xi Jinping em 2024 e integrado à iniciativa Cinturão e Rota, é a peça-chave que reduziria o tempo de transporte para a Ásia de 40 para 28 dias. A parceria sino-brasileira escancara uma realidade geopolítica: o governo chinês trata a logística interna do Brasil como extensão de sua segurança alimentar.

A estatal chinesa Cofco já é uma das maiores exportadoras de soja brasileira para a China, enquanto construtoras como a CCCC avaliam leilões ferroviários e a CRRC prepara uma fábrica em Araraquara (SP). O Brasil não precisa aderir formalmente à Nova Rota da Seda porque a integração física já está em curso, movida por contratos, licitações e necessidades concretas de commodities.

O desafio, entretanto, está nos detalhes do financiamento e da viabilidade. O BNDES articula uma linha especial para ferrovias com prazos alongados de até 60 anos e carência durante as obras, reconhecendo que o aporte privado não cobrirá sozinho os R$ 140 bilhões do pacote.

A Ferrovia Norte-Sul, espinha dorsal que liga Açailândia (MA) a Estrela d'Oeste (SP), também será estendida até Barcarena, no Pará, integrando-se a um novo terminal portuário. É a construção de uma malha que, pela primeira vez em décadas, pensa o território como cadeia logística planejada.

A aposta nos trilhos carrega o peso de corrigir a aberração de um país continental que abandonou a intermodalidade e se tornou refém do caminhão. Cada novo trecho ferroviário desloca toneladas de grãos e minérios para fora das rodovias, reduzindo o custo Brasil e a emissão de carbono por tonelada transportada.

A parceria com a China oferece escala e capital, mas impõe também o debate sobre soberania e controle tecnológico. O que está em jogo não é apenas o traçado da Ferrogrão ou da FICO/FIOL, mas a capacidade do país de não repetir o ciclo de construir infraestrutura de exportação sem internalizar engenharia e inovação.

Os próximos leilões, começando em setembro de 2026, dirão se a ambição transcontinental conseguirá vencer a burocracia, o custo do aço e a desconfiança do mercado. O Brasil já desperdiçou um século sem expandir seus trilhos, e o Pacífico nunca esteve tão próximo.