Fotografia documental sobre O túnel sob a baía: como a Linha 3 do Metrô do Rio promete revolucionar a mobilidade fluminense

Imagem: Foto: Wikimedia Commons · Licença: cc-by-sa

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O túnel sob a baía: como a Linha 3 do Metrô do Rio promete revolucionar a mobilidade fluminense

O túnel sob a baía: como a Linha 3 do Metrô do Rio promete revolucionar a mobilidade fluminense

Fonte principal: SP anuncia mais de R$ 50 bi para expansão do Metrô - Times Brasil | CNBC, Brasil tenta, de novo, expandir as ferrovias. Mas ainda falta combinar com os chineses, Governo do RJ anuncia projeto de expansão do metrô | G1 · Por Redação Mundo Trilhos


A combinação de volumes financeiros sem precedentes, engenharia de alta complexidade e extensões intermunicipais sinaliza uma virada estrutural na mobilidade sobre trilhos do Brasil.

A modernidade não é abstrata. Ela tem lastro, bitola, energia e direção. No Brasil de 2025, essa materialidade veio à tona com o maior ciclo de investimentos metroviários já anunciado, envolvendo simultaneamente as duas maiores metrópoles do país com cifras que somam aproximadamente R$ 86 bilhões e adicionam mais de 94 quilômetros de novos trilhos às malhas urbanas.

O governo do Rio de Janeiro detalhou o projeto de expansão do metrô que prevê 31 novas estações e 44 quilômetros de extensão, com um túnel subaquático de 3 quilômetros sob a Baía de Guanabara. Já São Paulo anunciou um aporte de R$ 57 bilhões para 50 quilômetros de metrô e outros R$ 14 bilhões para 22 quilômetros de malha ferroviária, totalizando 72 quilômetros de novos trilhos na capital paulista.

A peça central da transformação fluminense é a Linha 3, que ligará a Praça 15, no Centro do Rio, até Guaxindiba, em São Gonçalo, com parada em Niterói, totalizando 22 quilômetros de extensão e um investimento previsto de R$ 14,6 bilhões para esta etapa. Será a primeira ligação metroviária direta entre a capital fluminense e outros municípios, rompendo uma barreira histórica que sempre confinou o metrô carioca aos limites da cidade-sede.

O túnel subaquático escavado sob a Baía de Guanabara, entre a Praça 15 e a Cantareira, em Niterói, representa o trecho de maior complexidade geotécnica do projeto. Utilizará tecnologia de tunelamento que enfrentará pressões hidrostáticas consideráveis e sedimentos marinhos instáveis. Uma vez superada a travessia, o metrô operará em superfície, reduzindo o tempo de deslocamento entre Niterói e São Gonçalo de duas horas para apenas 40 minutos e atendendo a uma demanda estimada de 650 mil usuários por dia.

O secretário estadual de Transportes, Washington Reis, classificou o projeto como uma virada de chave na mobilidade. O sistema atual do Rio conta com 51 quilômetros de extensão em 41 estações e transporta cerca de 650 mil passageiros diariamente. Com a expansão total de R$ 28,8 bilhões, viabilizada por meio de Parcerias Público-Privadas com participação do BNDES, o metrô fluminense passará de 80 estações até 2032. Terá também a extensão da Linha 4 até o Recreio dos Bandeirantes, orçada em R$ 9,8 bilhões.

Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas promulgou a lei que autoriza o Estado a contrair empréstimos de até US$ 425 milhões, equivalentes a R$ 2,2 bilhões, destinados especificamente à expansão das Linhas 2-Verde e 6-Laranja. A Linha 6-Laranja, uma Parceria Público-Privada com a concessionária Linha Uni, será a primeira linha subterrânea totalmente nova da cidade em décadas. Terá 15,3 quilômetros de extensão e 15 estações, conectando a Brasilândia ao Centro com sinalização CBTC e previsão de operação parcial em outubro de 2026.

A inédita extensão da Linha 4-Amarela para fora da capital paulista, alcançando o município de Guarulhos, quebra um paradigma operacional que remonta à fundação do Metrô de São Paulo. Abre caminho para uma integração metropolitana que nunca existiu na escala proposta. Como apontou o portal Times Brasil, o cronograma envolve obras simultâneas nas linhas 2-Verde, 4-Amarela, 6-Laranja, 15-Prata, 17-Ouro, 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade.

O perfil técnico dos projetos é diverso e abrange desde o monotrilho da Linha 15-Prata, que opera com bitola larga e alimentação por terceiro trilho em via elevada, até túneis profundos em rocha com tuneladoras shield. Passa pela Linha 17-Ouro em formato de ramal, conectando o Aeroporto de Congonhas à Linha 9-Esmeralda. Essa multiplicidade de soluções de engenharia reflete a maturidade do planejamento metroviário brasileiro, que já não se limita a replicar modelos externos, mas desenvolve arranjos técnicos próprios para cada desafio geológico e urbano encontrado.

A presença chinesa no financiamento e na fabricação dos trens é um fator estruturante que não pode ser ignorado. A CRRC, maior fabricante de trens do mundo, prepara uma fábrica em Araraquara, no interior paulista, com investimento inicial de R$ 50 milhões. Já é sócia do Grupo Comporte na concessão do Trem Intercidades entre São Paulo e Campinas, um projeto de R$ 14 bilhões que compartilhará tecnologia e cadeia de suprimentos com a expansão metroviária.

A estatal chinesa CCCC também fincou raízes no Brasil com participação no Porto São Luís, no Maranhão, e manifestou interesse formal nos projetos ferroviários brasileiros em reuniões com o Ministério dos Transportes. Isso sinaliza uma integração logística sino-brasileira que vai muito além da exportação de commodities. Como bem destacou a reportagem do InvestNews, 70% da soja e do milho que a China importa vêm do Brasil, e arrumar a logística local interessa diretamente a Pequim.

O trecho entre Estácio e Praça 15, com investimento de R$ 4,4 bilhões, resolverá um gargalo operacional crônico do metrô carioca. Eliminará os cruzamentos operacionais nas estações Central e Botafogo que hoje obrigam os trens da Linha 2 a compartilhar os mesmos trilhos da Linha 1. A segregação das operações permitirá reduzir intervalos entre composições e ganhar eficiência energética, já que as curvas de aceleração e frenagem poderão ser otimizadas sem as restrições impostas pelo tráfego misto atual.

A previsão do Governo do Estado, conforme detalhou o G1 Rio, é que as primeiras licitações e contratações ocorram no começo de 2026, com os primeiros trechos inaugurados em 2031 e a conclusão total até o fim de 2032. Um cronograma ambicioso que exigirá coordenação multinível e a superação de desafios como desapropriações, licenciamentos ambientais e a estabilidade do fluxo de financiamento ao longo de quase uma década.

A densidade técnica do que está sendo projetado desmonta qualquer narrativa de que o Brasil abandonou a capacidade de planejar infraestrutura pesada. A combinação de túneis subaquáticos, estações subterrâneas profundas, vias elevadas para monotrilho e extensões intermunicipais com integração a corredores de ônibus e terminais intermodais demonstra um domínio de engenharia de transportes que poucos países do Sul Global conseguiram desenvolver com autonomia decisória e participação industrial doméstica.

Cada quilômetro de metrô enterrado sob cidades consolidadas custa, na média global, entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão. O fato de o Brasil estar contratando 94 quilômetros simultâneos indica que o país decidiu, finalmente, precificar corretamente o custo da imobilidade urbana e tratá-la como o passivo econômico que ela é. O que está em jogo não é apenas o conforto dos passageiros, mas a produtividade sistêmica de duas regiões metropolitanas que juntas respondem por uma fração desproporcional do PIB nacional e que convivem com tempos de deslocamento incompatíveis com qualquer projeto de desenvolvimento.